Solicitar diagnóstico
Segurança

FortiBleed: campanha massiva compromete mais de 75 mil firewalls da Fortinet no mundo todo

Uma campanha automatizada comprometeu dezenas de milhares de dispositivos Fortinet em 194 países. Entenda o que é o FortiBleed, por que está funcionando agora e o que sua empresa deve fazer.

O que é o FortiBleed?

O FortiBleed é uma campanha automatizada de comprometimento de credenciais direcionada a firewalls FortiGate e gateways SSL VPN expostos à internet.

Até o momento, pesquisadores afirmam ter identificado:

  • mais de 86 mil credenciais válidas;
  • aproximadamente 80 mil endereços IP únicos;
  • organizações localizadas em 194 países.

O nome FortiBleed foi cunhado por pesquisadores da SOCRadar em junho de 2026, após a descoberta de um servidor mal configurado utilizado pelos atacantes. O ambiente exposto continha ferramentas de automação, registros das operações e listas de credenciais que já haviam sido testadas e validadas.

Diferentemente de ataques baseados exclusivamente em falhas técnicas, o FortiBleed utiliza principalmente credenciais obtidas em vazamentos históricos e em bases de dados produzidas por infostealers — malwares projetados para capturar senhas, cookies, sessões e outras informações diretamente dos dispositivos das vítimas.

Existe algum CVE associado ao FortiBleed?

Não existe um único CVE que defina ou represente toda a campanha FortiBleed.

O ataque não depende exclusivamente de uma vulnerabilidade zero-day. A principal estratégia consiste em testar credenciais já comprometidas contra equipamentos Fortinet expostos à internet.

Entretanto, algumas vulnerabilidades da Fortinet foram identificadas ou exploradas no mesmo período, entre elas:

  • CVE-2025-59718 — bypass de autenticação SSO;
  • CVE-2025-59719 — bypass de autenticação SSO;
  • CVE-2026-24858 — bypass de autenticação relacionado ao FortiCloud SSO.

Essas vulnerabilidades possuem mecanismos próprios de correção. A campanha FortiBleed, porém, pode continuar funcionando mesmo em equipamentos atualizados, caso os atacantes possuam credenciais válidas.

Em outras palavras: aplicar o patch é necessário, mas pode não ser suficiente.

Quais versões e dispositivos estão expostos?

A campanha está direcionada principalmente a:

  • firewalls FortiGate executando FortiOS;
  • concentradores e gateways SSL VPN;
  • interfaces administrativas expostas diretamente à internet;
  • ambientes que ainda utilizam credenciais antigas ou reutilizadas.

A Fortinet introduziu mecanismos de hashing de senha baseados em PBKDF2 a partir das seguintes versões:

  • FortiOS 7.2.11;
  • FortiOS 7.4.8;
  • FortiOS 7.6.1.

Entretanto, apenas atualizar o firmware pode não migrar automaticamente todas as credenciais para o novo formato.

Em alguns casos, contas cujos administradores não realizaram novo login após a atualização continuaram utilizando o formato legado baseado em SHA-256 com salt.

Os atacantes também utilizaram infraestrutura especializada para processamento de hashes, incluindo um cluster de aproximadamente 45 GPUs gerenciado por meio do Hashtopolis.

Ainda assim, senhas longas e complexas não necessariamente foram quebradas por força bruta. Muitas já estavam disponíveis em texto simples em bases de infostealers.

Por que o FortiBleed está sendo explorado agora?

O sucesso da campanha resulta da combinação de três fatores principais.

1. Grande quantidade de credenciais disponíveis

Anos de vazamentos, infostealers e mercados clandestinos produziram enormes bases de usuários e senhas.

Essas credenciais são organizadas, validadas e testadas automaticamente contra serviços expostos à internet.

2. Falta de rotação de credenciais

Muitas organizações continuam utilizando:

  • senhas antigas;
  • credenciais reutilizadas;
  • contas administrativas sem MFA;
  • contas de serviço esquecidas;
  • senhas que já apareceram em vazamentos.

Uma senha complexa não é segura quando já foi capturada pelo atacante.

3. Ciclo contínuo de comprometimento

A campanha possui uma característica autoalimentada.

O ciclo funciona da seguinte forma:

  1. Os atacantes escaneiam a internet em busca de equipamentos Fortinet.
  2. Testam automaticamente credenciais comprometidas.
  3. Ao obter acesso, instalam ferramentas de coleta ou sniffers passivos.
  4. O firewall comprometido passa a observar o tráfego da rede.
  5. Novas credenciais são capturadas.
  6. As credenciais coletadas alimentam a base utilizada em novos ataques.

Quanto mais dispositivos são comprometidos, maior se torna a quantidade de credenciais disponíveis para comprometer outros ambientes.

Impacto no Brasil

O Brasil aparece entre os países mais afetados pela campanha, ocupando aproximadamente a 11ª posição no levantamento citado, com cerca de 1.737 dispositivos identificados.

Também foram mencionadas organizações de grande porte em diferentes países, incluindo empresas dos setores de tecnologia, indústria, telecomunicações e consultoria.

O tamanho da organização, portanto, não elimina o risco. O principal fator continua sendo a exposição do equipamento e a qualidade dos controles de acesso.

O que sua empresa deve fazer agora

1. Rotacione todas as credenciais

Redefina imediatamente:

  • senhas de VPN;
  • contas administrativas;
  • contas de serviço;
  • credenciais utilizadas em integrações;
  • usuários locais do FortiGate.

A complexidade da senha não elimina o risco quando ela já foi roubada ou registrada por um infostealer.

Não rotacione apenas uma conta suspeita. Em caso de indício de comprometimento, trate todo o conjunto de credenciais relacionadas como potencialmente exposto.

2. Habilite MFA nos acessos externos

Implemente autenticação multifator em:

  • SSL VPN;
  • contas administrativas;
  • acessos remotos;
  • portais externos;
  • serviços de gerenciamento.

O MFA reduz significativamente a possibilidade de utilização de uma senha roubada de forma isolada.

Ambientes Fortinet expostos à internet sem MFA devem ser tratados como risco prioritário.

3. Restrinja a interface de gerenciamento

A interface administrativa do FortiGate não deve permanecer acessível diretamente por qualquer endereço da internet.

Adote controles como:

  • restrição por endereços IP confiáveis;
  • VPN administrativa;
  • bastion host;
  • local-in policies;
  • segmentação da rede de gerenciamento.

Caso o FortiCloud SSO não seja necessário para a operação, avalie sua desativação.

4. Analise os logs de acesso

Procure por sinais como:

  • logins em horários incomuns;
  • acessos originados de países inesperados;
  • tentativas repetidas de autenticação;
  • alterações de configuração não reconhecidas;
  • criação recente de contas administrativas;
  • acessos realizados por usuários inativos;
  • mudanças nas políticas de VPN ou firewall.

Também devem ser investigadas contas com nomes incomuns ou genéricos, como:

  • support;
  • ssl-admin;
  • helpdesk;
  • backup-admin;
  • system-admin.

Caso exista qualquer evidência relevante, assuma um possível comprometimento e inicie o processo formal de resposta a incidentes.

5. Atualize o FortiOS

Instale uma versão atualmente suportada e corrigida do FortiOS.

Após a atualização:

  1. revise todas as contas locais;
  2. force a redefinição das senhas;
  3. realize novo login nas contas administrativas;
  4. valide se as credenciais foram migradas para o mecanismo mais recente de hashing;
  5. confirme que serviços desnecessários não permanecem expostos.

A atualização do firmware deve ser acompanhada pela revisão das credenciais e da configuração do equipamento.

6. Preserve os logs por tempo suficiente

Muitas investigações são prejudicadas porque os registros são apagados antes da identificação do incidente.

Como referência operacional:

  • 14 dias devem ser tratados apenas como retenção mínima;
  • 60 a 90 dias oferecem uma base mais adequada para investigação;
  • ambientes críticos podem exigir períodos ainda maiores.

Sempre que possível, os logs devem ser enviados para uma plataforma externa, como SIEM ou servidor centralizado, evitando que o invasor apague as evidências diretamente no firewall.

Conclusão

O FortiBleed não deve ser tratado apenas como uma vulnerabilidade de software que será resolvida com a aplicação de um patch.

Trata-se de uma campanha baseada em:

  • credenciais previamente roubadas;
  • automação em larga escala;
  • equipamentos expostos;
  • ausência de MFA;
  • falta de rotação de senhas;
  • baixa retenção e monitoramento de logs.

A resposta adequada exige atualização do FortiOS, mas também exige mudanças operacionais permanentes na proteção dos acessos administrativos e da infraestrutura perimetral.

Patch corrige vulnerabilidades. Não corrige credenciais já comprometidas.

Descubra como reduzir riscos de segurança na prática.Ver soluções de Cibersegurança
← Voltar para Inteligência